Redações do vestibular da UFRGS: umas considerações

Achei, entre meu material de corretora das redações do CV da UFRGS, uma frase que copiei de uma das muitas redações que corrigi. O candidato dizia assim: "As cadeiras que, nas universidades do estado, são destinadas para os cursos de licenciatura tiveram uma notável queda na sua densidade". Achei bem engraçado esse trecho porque eu sei o que o candidato queria dizer, mas o que ele disse foi bem diferente. Ele queria dizer que a procura por cursos de licenciatura, nas universidades do Rio Grande do Sul, diminuiu. Mas o que ele disse foi: "Nas universidades estaduais, as cadeiras que são enviadas para as faculdades de licenciatura (e talvez as mesas também) têm perdido sua firmeza, e é notável o quanto elas estão moles ou o quanto os alunos que sentam nelas acabam afundando". 

Fique claro que não estou escarnecendo do candidato, pois não tenho essa intenção inútil e inadequada (A banca, em sua maioria, fica é triste ao ver que o candidato se esforçou tanto para escrever bem que acabou se perdendo, e eu sou uma dessas pessoas que lamentam que nossos possíveis universitários se sintam tão pressionados que mal consigam redigir), mas acho que esse trecho serve bem para isto: alertar para que não se tente fazer, na hora da redação, algo que vá além (ou muito, muito além) do que a pessoa costuma fazer normalmente, quando escreve ou fala. Claro que não estou dizendo, também, que se deve fazer uma dissertação do mesmo modo como a pessoa conversa, com a linguagem coloquial e as estruturas "flutuantes". Quero dizer que não é na hora da redação do vestibular que a criatura vai aprender a escrever "bonito" (ou correto, ou elegante), se não tiver treinado - e muito! - antes! É preciso treino, é preciso esforço, ao longo do processo de preparação. A pessoa deve chegar no momento da redação já sabendo que (seja o tema que for) terá condições de se expressar, de elaborar opiniões e argumentos, de estruturar frases coerentes e corretas. Se não tiver treinado antes, nada fará com que consiga se sair bem lá, na última hora, quando tudo já está acontecendo.

Houve uma candidata (eu sei que não era um candidato porque ela se referia a si mesma no feminino), cuja redação foi corrigida por uma colega minha, que fez dois bons parágrafos e iniciou um bom terceiro parágrafo. No entanto, algo saiu errado, e ela começou uma ladainha do tipo: "Mãe, pai, me desculpem, estou nervosa, acho que não entendi direito o tema, ou acho que entendi mas não sei o que escrever, eu tento de novo no ano que vem, me perdoem porque não vai dar, vou zerar essa redação", e por aí adiante. Ficamos surpresas ao ver isso, principalmente porque a pessoa conseguiu iniciar a redação, conseguiu estruturar os parágrafos iniciais e até apresentar um ponto de vista. O que terá havido? Como ela mesma disse, ficou nervosa - o que é bem normal, nas circunstâncias de vestibular -, mas, além disso, ficou evidentemente insegura - e isso é uma pena. Se estivesse segura daquilo o que estava fazendo, acho que ela conseguiria fazer uma redação dentro da média, até o fim. Que pena!

Mais uma vez (acho que nunca é demais dizer), repito: é preciso preparo para escrever uma dissertação. O preparo vem antes do momento da redação em si, e deve ser feito com afinco. Não adianta achar que "a banca aceita qualquer coisa", ou que "a banca não vai notar" que o candidato não sabe dissertar. Também não adianta chegar lá e tentar bajular a banca, escrevendo coisas como "graças aos maravilhosos formados em Letras, que hoje corrigem essa redação, e que tiveram a brilhante ideia desse tema incrível (...)", porque não é isso o que a banca avalia. A banca de correção das redações do vestibular da UFRGS avalia muitos elementos, dentre os quais não está o critério "bajulação" e não está, também, o critério "a opinião dele é igual a minha". Queremos ver que os próximos universitários compreendem o que é uma dissertação e como ela se estrutura. A banca busca bons argumentos, bem conectados entre si, bem elaborados. 

Quem não conseguiu entrar em 2011 deve tentar novamente em 2012. Para isso, é preciso se preparar sem preguiça, sem "jeitinho" e sem medo.

Bons estudos!







2 Responses
  1. Oi professora Andréia. Sou professora de redação no Colégio Fátima em Santa Maria. Gostei muuito do seu blog. Estou seguindo. É possível vc. me enviar seu e-mail??
    Meu: elisanesc1@hotmail.com

    Muito obrigada. Profª. Lisa


  2. Gisele Says:

    Olá! O vestibular da UFRGS está se aproximando. Você poderia dar dicas mais específicas para a redação?


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